20.11.09

Encontrei o piano



Por décadas no porão esquecido

Hibernava coberto por caixas
E uma espessa camada de poeira

Tocar-lhe a madeira (de imediato)
Fez-me devolvê-lo à sala
E ouvir desfilarem no ar
Os mesmos sons
Que um dia vestiram de vida a nossa casa

19.11.09

Os cães de minha rua


Sempre tão audazes e ruidosos
Nesta madrugada
Silenciaram abruptamente

A isso seguiu-se uma rajada de ventos
E um emaranhado de luzes riscou-lhes os olhos
Recolheram-se assustados
Com as vozes sufocadas
Por monstros invisíveis e roucos

Em sua sabedoria
Foram unânimes em concordar
Que em noite de tempestade
A morte é quem faz a ronda
E é melhor manter seu olhar do lado de fora

18.11.09

Dormir até durmo


(para Eliana Rubim)

Mas não me abro
Aos sonhos

No momento
Isso seria exigir muito

17.11.09

Um descuido da memória


(para Virna Teixeira)

E o relógio de bolso
Entra pela janela
E instala-se sob a cama

Interrompe seu trabalho
Para não mais ser ouvido

Não há como vê-lo
Mas continua lá
Eu sinto

16.11.09

Dê-me a chave da noite


(para Orides Fontela)

Só o horizonte faz algum sentido
Fomos vencidos pela solidão
E agora é preciso dormir

13.11.09

O último paralelepípedo de minha rua


(para Maria Helena Sato)

Não permiti
Que fosse pelo asfalto soterrado
Trouxe-o para casa
Como um troféu conquistado

Bloco ígneo
De granito cinza e pesado
Moldado ao longo de eras
E muito útil para na cabeça de alguns ser lançado

Ponteado de pequeninas luzes
Incrustações de quartzo
Delicadamente espalhadas
No amorfo substrato

Lembrança de um tempo
Em que a terra (um pouco menos generosa)
Não tinha seus poros vedados
Por nenhuma manta betuminosa

12.11.09

Algumas dores secretas


(para Ana Cristina Cesar)

Me apontam
E avisam:
- Ainda estás vivo!